Como bem disse Saramago, em seu penúltimo livro Viagem do Elefante, nós sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam. Nada melhor do que começar um texto a partir de uma citação dele, escritor a quem eu tinha carinho especial. A despeito de sua afirmação contundente, creio que ainda não sei se estamos fatalmente destinados a isto, mas certamente é um conforto lembrar a existência desta possibilidade. Parece-me, de fato, mais do que confortante, é escatológico como boa parte do alicerce ideológico das religiões. É nada menos que um fatalismo que abraça boa parte dos nossos anseios.
Eu tinha começado a escrever este texto uma semana após a morte de Saramago, muito embora eu tivesse escrito apenas os dois primeiros períodos acima transcritos, não saberei agora precisar o que me fez continuar agora, talvez isso tenha a ver com uma cena que eu vi semana passada num hospital, lá eu vi solidão e tive medo. Medo de estar só na hora da morte, medo de não ter ninguém ao lado pra segurar a mão no momento final, visto que o fim é a única certeza. E o que fiz eu, querendo evidentemente compartilhar minha análise do pobre moribundo atrelada à angústia de vê-lo só, sem ninguém ao lado para ouvir seus delírios, liguei para minha mãe. Quem mais poderia entender minha observação trivial e espontânea?! Ela me ouviu e disse-me com doçura: - quer que eu vá buscá-la, não se impressione, boa parte das pessoas procuram isso. Considerei um pouco suas palavras e desliguei. Posteriormente estendemos nossa discussão e chegamos a outras tantas conclusões. (...)
Pensando bem acho que o que me fez continuar de onde parei o meu texto foi simplesmente vontade de escrever. Tentando pôr em palavras as ideias que andam flutuando aqui dentro deste baú gasto porém jovem. Esse baú, como diria Leminski, (e quem mais poderia dizer mais e melhor do que ele?) que está agudamente vazio ainda que esteja cheio de tudo. No mais, termino com o trecho de A Jangada de Pedra, meu livro favorito do José Saramago, o primeiro que li dele, e que encerra e diz muito mais do que eu poderia expressar com minhas palavras limitadas sobre o que senti e sinto.
"..., e estando José Anaiço de costas para a cozinha, donde a luz vem, continuamos sem saber que feições são as suas, parece este homem que se esconde, e não é tal, quantas vezes aconteceu mostrarmo-nos como quem somos, e não valeu a pena, não estava lá ninguém para ver."
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Bem Natural
Eu sempre fiz
De quase tudo a fim
De não fazer mal a ninguém
Mas nem assim
Quis tudo que fiz, meu bem
Não é natural
Tão natural
Você me diz
Não dissimulo bem
Uma resposta dita em vão
Se eu digo sim
É pra você, não pra mim, então
Não é natural
Tão natural
Nem tão natural
Bem natural
Sendo assim por obrigação
Um bem, meu bem é não
Sendo assim por obrigação
Meu bem, um bem é mal
Sendo assim por obrigação
Um bem, meu bem é não
Sendo assim por obrigação
Meu bem
Serei feliz, quando agir por mim
Sem querer nada no fim
Nem peso ou culpa,
Só sinceridade faz bem
(Móveis Coloniais de Acaju)
De quase tudo a fim
De não fazer mal a ninguém
Mas nem assim
Quis tudo que fiz, meu bem
Não é natural
Tão natural
Você me diz
Não dissimulo bem
Uma resposta dita em vão
Se eu digo sim
É pra você, não pra mim, então
Não é natural
Tão natural
Nem tão natural
Bem natural
Sendo assim por obrigação
Um bem, meu bem é não
Sendo assim por obrigação
Meu bem, um bem é mal
Sendo assim por obrigação
Um bem, meu bem é não
Sendo assim por obrigação
Meu bem
Serei feliz, quando agir por mim
Sem querer nada no fim
Nem peso ou culpa,
Só sinceridade faz bem
sexta-feira, 4 de junho de 2010
A essência do deixar pra lá
Há um céu sem estrelas
Há um silêncio que o preenche
Há, também, a rua vazia
Esta que é tão cheia de vida,
Tão cheia de cinza
E aqui, bem aqui,
Há qualquer coisa sem nome
Há algo que almeja ser e não o é
Há isso que, de tão amorfo,
Parece já ter nascido morto.
Há uma chave em algum lugar
Há aquela chave naquele lugar
Haverá uma porta também?
Existe uma necessidade maniqueísta
Que exige dualidade
E, por isso, uma porta
Por que não uma janela - dessas de pinho - bem grande?
Há uma senha, um segredo
Há quase tudo ainda por dizer
Palavras cuja existência,
Talvez, ainda desconheça
Há muito a aprender, muito por descobrir
De dentro para fora, eu, por inteira, amanheço
Há um sol em mim?
Eis que ressurjo, tal qual a fênix mitológica, das cinzas
Há um sem-número de verdades
Uma deve satisfazer, eu suponho
Vamos, menina!
Adentre no barco das certezas mais incertas
Navegue nesse mar de mentira(s)
E pegue a verdade que lhe couber
Tamanho M que é pra não ocupar tanto espaço
(fevereiro - 2010)
Há um silêncio que o preenche
Há, também, a rua vazia
Esta que é tão cheia de vida,
Tão cheia de cinza
E aqui, bem aqui,
Há qualquer coisa sem nome
Há algo que almeja ser e não o é
Há isso que, de tão amorfo,
Parece já ter nascido morto.
Há uma chave em algum lugar
Há aquela chave naquele lugar
Haverá uma porta também?
Existe uma necessidade maniqueísta
Que exige dualidade
E, por isso, uma porta
Por que não uma janela - dessas de pinho - bem grande?
Há uma senha, um segredo
Há quase tudo ainda por dizer
Palavras cuja existência,
Talvez, ainda desconheça
Há muito a aprender, muito por descobrir
De dentro para fora, eu, por inteira, amanheço
Há um sol em mim?
Eis que ressurjo, tal qual a fênix mitológica, das cinzas
Há um sem-número de verdades
Uma deve satisfazer, eu suponho
Vamos, menina!
Adentre no barco das certezas mais incertas
Navegue nesse mar de mentira(s)
E pegue a verdade que lhe couber
Tamanho M que é pra não ocupar tanto espaço
(fevereiro - 2010)
sexta-feira, 14 de maio de 2010
D. Lúcia
Eu queria falar sobre a minha mãe. Eis-me aqui.
Tentando ficar longe de idealizações, posto que entre ela e eu há inúmeras divergências, posições distintas sobre tantas coisas, formas de ver a vida que, por vezes, consiste num abismo etário e ideológico. No entanto, a admiração, que tenho por ela, faz com que muitas vezes eu veja muito dela em mim, a ponto de eu dizer pra mim mesma ou até mesmo proferir a torto e a direito que "Eu sou muito minha mãe". Mas, ao comparar a história da minha mãe com a mães de pessoas amigas e conhecidas pode parecer até meio chato e pouco convincente, contudo, eu penso comigo mesma e concebo sua imagem atrelada a pensamentos de vanguarda e a atitudes bastante corajosas. Em outras palavras, utilizando de alguns lugares-comum, minha mãe é dessas que enfrenta as adversidades de cara limpa, carrega consigo uma idoneidade e honestidade singular, e a cada ano que passa, ao invés de se acomodar e esperar a morte chegar "como diria Raul Seixas", ela ergue a cabeça, embora a vida diga alguns nãos, e procura escrever seus próprios sim's em sua trajetória.
Tenho por ela um afeto e um carinho enorme, embora a meu ver, os meus sentimentos pareçam menor do que o amor que ela me dedica, embora eu pense que mensurar sentimentos seja coisa para ingênuos que ainda não conseguem perceber que isso não se pode pesar numa balança tampouco racionalizar a ponto de perder a razão de ser. Devo estar incluída ainda no grupo dos ingênuos.
No mais, só poderia dizer que ela é fundamental para a formação do que eu sou.Além de disso, ela busca e almeja à realização não só na faculdade da maternidade, fato que muito me alegra e me deixa um tanto orgulhosa, haja vista ela debruçar-se sobre os estudos em busca de conhecimento geral e auto-conhecimento, o que tem feito com muita presteza ao retornar aos estudos, cursando uma área do conhecimento que muito me apraz. O que, para mim, é reflexo e síntese de sua postura e de suas escolhas no decorrer de sua vida.
Por fim, não poderia deixar de dizer que a minha Mãe é corajosa, teimosa, inteligente, independente, sensível, chata, séria, amiga, sem-noção, linda, forte, guerreira e mais um sem-número de adjetivos.
Em suma, eu só queria que você soubesse que, mesmo isto sendo um clichê, você tem sido a melhor mãe que você pode ser e eu, certamente, sou e serei grata por tudo.
Te amo, mainha.
Tu és a minha linda, meu colo, meu amor todinho.
"Mainha tá com frio, tá com frio, tá com frio...
Érica quer domir, quer dormir, quer domir...
Estevão quer biscoito, quer biscoito, quer biscoito...
Canção de Painho, lembra?!"
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Uma óptica
Eu me mostro e acho tão confuso
Eu escrevo e acho tudo igual
Eu fecho os olhos e consigo me enxergar melhor
Você não se mostra e torna tudo mais confuso
Você joga com palavras e desfaz as ambiguidades
Você permanece de olhos abertos,
Eu escrevo e acho tudo igual
Eu fecho os olhos e consigo me enxergar melhor
Você não se mostra e torna tudo mais confuso
Você joga com palavras e desfaz as ambiguidades
Você permanece de olhos abertos,
No entanto, não consegue ver o que eu só consigo de pálpebras cerradas.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
De mundança
Saudações,
Justamente quando eu estou começando a gostar disto aqui, eu não tenho mais tanto tempo ocioso para tal fim. Resolvi fazer umas mudanças (dar uma repaginada) no layout, nas cores e nos nomes. Espaço silente era tão 2006, tão herman hessiana, mas passou; é preciso acostumar-se com a efémeride das coisas e isto, obviamente, inclui blogs também. O título, como vemos, continua de uma breguice característica, mas talvez, tenha qualquer coisa de contemporâneo, ao menos para mim. Em suma, era só isso. Descobri que escrever minhas bobagens neste espaço é bem gratificante. A próposito, quero agradecer aos comentários(ametistas verdes) dos meus 4 ou 5 leitores que costumavam passar os olhos de vez em quando, mas infelizmente os comentários foram apagados por obra desta coisa que eu não sei mexer direito. No mais, espero voltar a escrever com minha assiduidade de outros tempos: leia-se 2 posts por mês. Um abraço apertado pros zumbizinhos que vez por outra aparecem por estas bandas do espaço internético.
quarta-feira, 17 de março de 2010
enchantagem
de tanto não fazer nada
acabo de ser culpado de tudo
esperanças, cheguei
tarde demais como uma lágrimade tanto fazer tudo
parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito
pense um pouco
beba bastante
depois me conte direito
que aconteça o contrário
custe o que custar
deseja
quem quer que seja
tem calendário de tristezas
celebrar
tanto evitar o inevitável
in vino veritas
me parece
verdade
o pau na vida
o vinagre
vinho suave
pense e te pareça
senão eu te invento por toda a eternidade
-Paulo Leminski-
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